Parece até que Ana estava pressentindo que teria muito tempo ocioso para realizar a leitura daquele livro, tamanha sua ânsia de ir comprá-lo. Quando o amigo ligou para ela no dia anterior já a noitinha para lhe dizer quantas sensações aquela leitura o causara e trazendo o livro até ela no dia seguinte, ela já o desejara ler. Foi preciso apenas a leitura do primeiro e grande parágrafo para que ela se identificasse por completo com ele.
O livro fala de muitas coisas que Ana deseja ouvir e a leitura lhe provoca sensações semelhantes as do amigo, sensações quentes, das quais ela não consegue fugir, tornando-se mais forte que ela; quando se percebe seu corpo já está quente, vermelho e vivo; vivo como há tempos não se mostrava. Ela gosta da sensação e como gosta! A leitura, assim como outras que realizou não faz tanto tempo, se encaixa quase que completamente no momento em que ela está vivendo.
Não fosse o sono que bate a sua porta de instante em instante, ela já teria devorado todas aquelas páginas vorazmente; mas quando se dá conta, o raciocínio e a assimilação lógica das palavras vai se fazendo rasteira e é obrigada a cochilar. por outros momentos, é inevitável que seus pensamentos não viagem para um certo lugar, um certo momento, um certo alguém... e aí as palavras vão sendo lidas, mas o que o cérebro vê são as lembranças e não a leitura presente. Tudo isso é mais forte que ela e junto com as lembranças é despertado em Ana as mesmas sensações do livro, o seu corpo quente, a boca seca, os fluidos não lhe poupam; Ana excita-se constantemente; o sono lhe salva. Enquanto dorme as sensações perturbadoras lhe dão um pouco de sossego.
Pensa em fazer testes. Testar as pessoas. Sumir-se, negar-se. Pedir disfarçadamente que ele venha até ela. Ele, pois ela ainda não pode chamá-lo de seu. Não que Ana não saiba que ninguém é de ninguém literalmente falando, ninguém é propriedade de ninguém, mas figuradamente ela gostaria que ele fosse seu, gostaria de sentir-se sua e ele dela e só, e de mais ninguém. Queria ter certeza disso.
Outra coisa de que Ana se satisfaz: ter a mínima certeza das coisas. Mas, vem se convencendo cada dia mais que se tem uma coisa mais incerta na vida é a própria vida. Para ela, a vida talvez devesse se chamar "incerteza": "Olá, tudo bem? Como vai sua incerteza?"; talvez tudo fizesse mais sentido... Mesmo sabendo disso, engana-se esperando certezas de algo.
Acredita que com um tipo de afastamento, com a ausência, causará a falta e consequentemente a saudade em alguém; o alguém que ainda não pode chamar de seu, mas gostaria de chamar, não por amor ou paixonite aguda. Não. Sabe-se bem que ela não está a-pai-xo-na-da; porém, sente-se alguma coisa diferente dentro de si, entusiasmos talvez, ou mesmo tesão, porque não admiti-lo? Um sinal piscando, dizendo a ela que talvez ela queira realmente viver algo com um alguém e que também, até que não seria má ideia apaixonar-se por aqueles olhinhos que a observam tão bobamente.
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